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SENSAÇÃO DE HAVER PERDIDO MUITAS PREGAS OU CAGADO UMA MELANCIA

... sim, é isso mesmo: vão à merda, suas imprestáveis!...

Estou xingando, leitor, a inspiração e as musas
pois não preciso literariamente da ajuda
de nenhuma delas...

As musas então, nem se fala!...

São mais inúteis que a Morte,
uma vez que não me inspiram nada,
nem mesmo vontade de detratá-las...

Já a cu doce da inspiração, apesar de detestar
os poetas que, como eu, andam sempre armados,
transpirados
e a serviço das emoções difíceis (como diria
Drummond, embora não literalmente assim)
às vezes a infeliz desadoça o seu infernal
e franzido orifício anal
e inventa, sem ser chamada, de me servir
de parteira, o que, convenhamos,
a torna - e haja ironia! - de certa forma
desnecessariamente menos inútil,
e ‘desnecessariamente’ porque na hora
do poeta dá cria o único a correr risco
de vida é a criança, leia-se, a poesia,
apesar de alguns poemas me deixarem
com a traumática, deprimida e despregueada
sensação pós-parto
de haver expelido uma melancia
sabe Deus (e o Diabo também sabe) por onde...


José Lindomar Cabral

PARA NÃO RIMAR AMAR COM ALMÓDOVAR

... só depois de haver adquirido maturidade
(aquisição esta alcançada antes de conquistar algumas rugas,

sim rugas são conquistas)
foi que pude então compreender
que amar não é coisa de meninos, quer dizer,
não é brinquedo, haja vista que o amor queima mesmo
qualquer um que, amando, não esteja preparado
para lidar com o fato consumidor de que o amor, ao contrário
da paixão que não for segundo G.H., é fogo eterno,
perpétuo e não uma efêmera chamazinha
que permanece infinita somente enquanto
dura a efemeríssima palha fumacenta que a alimenta,
uma vez que confessar, por exemplo,
“deixei de amar fulano(a)”
não passa de uma eufêmica e anestesiadora expressão
por meio da qual o sujeito procura proteger-se
da dor que emana da compreensão apenas inconsciente
de que o amor que o inspirara a amar alguém
em vez de haver se extinguido, na verdade, acabou
achando-o aquém, leia-se, verde demais para a missão
de alar e desatar o outro, e por isso imigrou de corpo
a procura de um coração desatado e/ou preparado
inclusive para usar suas próprias cordas
de maneira que as mesmas pruduzam harpejos,
não amarração, entenda-se, um coração apto
para não rimar amar com Almódovar,

ou seja, para não rimar amar com atar...

José Lindomar Cabral

O OLEIRO DO PENSAMENTO

O poeta é o oleiro do pensamento:

em vez de argila, vento...
Este poema, por exemplo,
é a materialização artesanal de algo
abstrato que até pouco tempo atrás
a gente chamava: Ô brisa,
venha cá." E ela - a brisa –
obediente e suave como ela só,
vinha que era uma beleza...

José Lindomar Cabral

LEITE DE TEMPO E DE VENTO

... às vezes quando não estou dormindo nem acordado

(pois é assim que escrevo: arrebatado pelos sentidos)
eu ouço o vento mugindo e vejo o tempo pastando, ruminando
as horas... os textos... os fatos... os acontecimentos...
como o boi pasta e remói a erva do campo; e então
ponho-me a ordenhar o tempo e a puxar verbalmente
as curtas e arrochadas tetas do vento
das quais extraio, quente e espumante, o leite
mais racional que existe, que é a essência dos temas
que antes de serem transformados em poemas
primeiro os faço descer ao centro magmático, convulsivo
e eruptivo do meu ser
que é o lugar onde fica situado o Templo do Assopro
que herdamos de Adão, vulgo Espírito
(os budistas chamam-no Nirvana)
para que ali os mesmos sejam passados purgativamente
pela chama branca do altar que lá existe
para só então, purgados, voltarem à tona, virarem versos
e serem, enfim, apresentados ao público,

a um público que, infelizmente,
está sendo tornado cardiomentalmente

cada vez menos distinto,

como se a humanidade inteira,

salvo raríssimas exceções,

tivesse sido completamente

abduzida biochipada...

José Lindomar Cabral