... sim, é isso mesmo: vão à merda, suas imprestáveis!...
Estou xingando, leitor, a inspiração e as musas
pois não preciso literariamente da ajuda
de nenhuma delas...
As musas então, nem se fala!...
São mais inúteis que a Morte,
uma vez que não me inspiram nada,
nem mesmo vontade de detratá-las...
Já a cu doce da inspiração, apesar de detestar
os poetas que, como eu, andam sempre armados,
transpirados
e a serviço das emoções difíceis (como diria
Drummond, embora não literalmente assim)
às vezes a infeliz desadoça o seu infernal
e franzido orifício anal
e inventa, sem ser chamada, de me servir
de parteira, o que, convenhamos,
a torna - e haja ironia! - de certa forma
desnecessariamente menos inútil,
e ‘desnecessariamente’ porque na hora
do poeta dá cria o único a correr risco
de vida é a criança, leia-se, a poesia,
apesar de alguns poemas me deixarem
com a traumática, deprimida e despregueada
sensação pós-parto
de haver expelido uma melancia
sabe Deus (e o Diabo também sabe) por onde...
José Lindomar Cabral
O poeta é o oleiro do pensamento:
em vez de argila, vento...
Este poema, por exemplo,
é a materialização artesanal de algo
abstrato que até pouco tempo atrás
a gente chamava: Ô brisa,
venha cá." E ela - a brisa –
obediente e suave como ela só,
vinha que era uma beleza...
José Lindomar Cabral
... às vezes quando não estou dormindo nem acordado
(pois é assim que escrevo: arrebatado pelos sentidos)
eu ouço o vento mugindo e vejo o tempo pastando, ruminando
as horas... os textos... os fatos... os acontecimentos...
como o boi pasta e remói a erva do campo; e então
ponho-me a ordenhar o tempo e a puxar verbalmente
as curtas e arrochadas tetas do vento
das quais extraio, quente e espumante, o leite
mais racional que existe, que é a essência dos temas
que antes de serem transformados em poemas
primeiro os faço descer ao centro magmático, convulsivo
e eruptivo do meu ser
que é o lugar onde fica situado o Templo do Assopro
que herdamos de Adão, vulgo Espírito
(os budistas chamam-no Nirvana)
para que ali os mesmos sejam passados purgativamente
pela chama branca do altar que lá existe
para só então, purgados, voltarem à tona, virarem versos
e serem, enfim, apresentados ao público,
a um público que, infelizmente,
está sendo tornado cardiomentalmente
cada vez menos distinto,
como se a humanidade inteira,
salvo raríssimas exceções,
tivesse sido completamente
abduzida biochipada...
José Lindomar Cabral
Não sei se sabíamos desse acaso aparente ou se simplesmente desmentíamos o trecho final. O que eu mais queria era não ser, não crer ou ter suficiente insuficiência para pensar em dizer o quanto tudo é muito cansativo.
Que caralho tudo isso!
E eu não tenho nem ao menos um dólar guardado dentro do paletó infestado de pó que ainda assim, devorado pelas traças que regurgitam pequenas frases de amor, mantém sua presença encabidado de forma fútil como se fossemos meros idiotas, viciados em coca-cola e queijo branco derretido, pendurados pela gola vital de toda uma merda expoente.
E eu não quero assistir filmes porque me sinto um babaca dentro da televisão enchendo de ar meu ultimo pulmão para beijar uma atriz e ter que olhar para a câmera dois e sorrir em vão. Eu não quero ter que ouvir minha mulher falar através do brilho tímido de seus olhos o quanto é gostoso aquele cara parecido com o Mickey Rourke enquanto que quando na transa ela goza loucamente com o que lhe sobrou após o final do filme.
E se for pra ser político que se foda todo plenário porque de executivo o cú dos pais e do país está cheio do legislativo. E todos seguem cantando dentro de si sem lenço e ainda sem documentos. Cansei da palhaçada! Digo não e não voto mais por prazer mesmo sabendo que jamais terão comigo, muito menos saciar os votos penitentes da vasta imensidão de promessas.
De tudo isso e mais um pouco é de que estou cheio, com as bolas infladas de hélio, meu amigo é serio, que satisfação saber que tu estás cada vez mais caolho e que depilas estas sobrancelhas bigodudas e ainda anda raspando o cú para se travestir enquanto assiste ao jornal nacional.
Oras, que anormal seria se eu fosse minha própria concubina e trepassemos num pé de manga como duas mulheres lesbicas porem, rapinas, e naquele mesmo instante em que Deus observa nossos passos, será que ainda assim você empinaria tuas duas narinas para respirar o sol envergonhado?
Não sei se sabíamos desse acaso, mas ao contrario de tudo que se passa pela minha mente enquanto te encaro no mais clássico estilo olho no olho, escorre somente a duvida se finalmente tudo aquilo e isso aqui teria fim.
Eduardo Santos
Ela vai. Tornozelos grossos, penugem dourada. Ela arrebenta.
Ela vai, aos desesseis, fazendo fila. Passa por todo mundo. E segue.
Bate o burocrata que a quer fazer legal. Dribla o plutocrata que a quer só para dele.
Ela vai, aos desesseis, fazendo a festa. Dos que a querem acompanhar.
Dança com o mendigo. Bebe com o maluco. Mexe com a torcida.
Ela vai, aos desesseis, fazendo o fino.
E desberlota a mãe que a quer só pra ela. E desarvora o pai que a quer mais para ele.
Ela vai, aos desesseis, satisfazendo fundo. Os que a tiram pra dançar.
E descabela o palhaço do garoto que a toca com cuidado.
E desenrola a bandeira da menina envergonhada que cresceu
E desentoca o bagulho que agora virou a bela e a fera
Ela vai, aos desesseis, se fazendo nesse mundo. Junto com quem quer
Escrever a vida por linhas tortas e versos trôpegos
Cutucar o tempo com seu passo insinuante sideral
Executar o solo mais elétrico nesse palco
Vociferar palavras estilhaçadas no vento
Ela vai, com oito em cada perna e o infinito pelos poros.
Ela vai, aos desesseis. Enquanto você pensa, ela já fez.
chacal